Impressiona como a rede Record é capaz de veicular conteúdo sensacionalista e tendencioso, como aconteceu neste domingo (10), no programa televisivo Domingo Espetacular. Nele, o repórter Vinícius Dônola, correspondente da rede em Nova Iorque, teve a pretensão de revelar o mistério que envolve Lizzie, uma jovem norte americana que não consegue engordar. Segundo a reportagem, ela nasceu prematura de quatro meses e sobrevive, nos seus 21 anos, com uma doença que faz com que o corpo dela não consiga reter gordura.
Milagre ou não da natureza, a reportagem não buscou se aprofundar pelo viés científico do caso, uma vez que não foram ouvidos médicos envolvidos com a jovem, que certamente acompanham a vida dela e sua doença, ou de cientistas que deveriam ter interesse no caso. Ao invés, levantaram-se dúvidas sobre a condição rara enfrentada pela moça, quer seja em relação aos irmãos mais novos por saudáveis ou por ela ter quase morrido dois anos antes por anemia grave, mesmo sendo uma “boa de garfo” como disse a família.
Assim, a reportagem explora a condição miraculosa da vida de Lizzie, desenganada pelos médicos desde o nascimento. Conforme a família relatou, os médicos disseram que, por ela ter nascido tão prematura, não sobreviveria e sobreviveu, disseram que ela não conseguiria andar e, hoje, mesmo com dificuldade, consegue caminhar, disseram que ela não poderia falar e, hoje, ela é dá palestras sobre motivação.
A Record costuma fomentar as dificuldades de pessoas famosas e personalidades públicas, algumas citadas na reportagem, enfrentam nas suas vidas e tira daí a autenticidade de muita coisa que reportam. Na história da jovem Lizzie, pela dificuldade dela de engordar, foi explorado o inverso – a dificuldade que certas pessoas tem em emagrecer, principalmente nos Estados Unidos onde milhares de pessoas que tem problemas de saúde devido à obesidade e dificuldade de manterem o corpo em forma.
O que se explora neste tipo de reportagem é o apelo da anticiência, um assunto que divide a opinião de pensadores e cientistas do mundo por generalizar assuntos que deveriam ser tratados com profundidade, de caráter científico. Na reportagem, tentou-se buscar na deficiência de Lizzie a solução para problemas gerais do mundo ao mostrar apenas parca especulação médica e não estudos científicos que constatassem na jovem alguma possibilidade da cura para a obesidade.
A reportagem termina deixando no ar o ato miraculoso e misterioso da jovem, por estar viva, de levar consigo como a um legado, essa “chave” para a cura da obesidade. Seria esse o “mistério” anunciado pela emissora quando na chamada do programa?