O que há para se falar de um resfriado fora de época? Quem, em sã consciência, iria ater-se a um chilique desses, se a temporada de verão anima as pessoas que só se dispõem a se sentirem felizes, ao ponto de ninguém se dar conta das sombras que as luzes provocam. Ainda, não há como culpar essas pessoas de estarem assim felizes e, portanto, alheias às coisas ruins ao seu redor, pois o calor é uma conscientização de todos e de decisão unânime que todos devem se sentir bem nas épocas quentes. A constatação disso está em cada olhar e cada ação concretizada pelo suor que mesmo os desavisados não se importam em sentir.
Mas então surge um resfriado inesperado. Vindo de não sei aonde vem para perturbar. Parece sim ser uma entidade que se apossa de cada músculo, de cada célula de nós e nos faz perceber um mundo paralelo ao afã generalizado; ela trás consigo horrores que poucos ousam mencionar, daí o pouco interesse dos outros pois estão vivenciando outras sãs vivências e não há tempo para isso.
Entretanto, existe um mau maior entre os espirros e a face cabisbaixa do enfermo no meio do verão. Uma febre surge, que é mascarada de febre de si mesma para esconder a entidade, para evoca por entre os tremores de calafrio do sujeito, que certamente sofre em meio à profusão do calor, uma mensagem secreta e a muito esquecida pela humanidade. Essa entidade é a que se denomina Febre Solitária. que estranhem vem acompanhada pelos sintomas típicos de resfriado, mas que detém em si um elo perdido do nosso inconsciente.
Para uns ela se manifesta em forma de devaneios, que de tão fortes acabam chamando a atenção dos mais chegados e causa preocupações. Para outros, e digo que talvez seja uma das piores, ela abraça o sujeito de momento em momento entre lucidez e devaneio do enfermo e, sabe-se lá por consciência ou inconsciência deste, ela passa a conversar com ele, passa a sussurrar na sua mente coisas que nunca havia pensado ou vivido, pois este desconhece que sua própria existência é tudo aquilo que os outros viveram e que o tempo foi apagando pouco a pouco para hoje se acreditarmos que cada pessoa é diferente de outra, e que isso enfim não teria nada a haver.
Mas a presença dessa entidade, a Febre Solitária, traz consigo um forte desejo de restaurar nas pessoas um elo a muito esquecido e o coitado do sujeito se afunda mais e mais em suas memórias, que são na verdade emprestadas dela. Tanto influencia que, num momento de lucidez, a origem da Febre se revela por metáforas e, de um estalo do ouvido após um espirro que vem da alma, histórias saem das sombras para a claridade da mente, nessa mente que por ser solitária dentro da pessoa não consegue se conectar com outras tantas mentes que passam por situação caótica semelhante. O desabafo da Febre acontece para chamar a atenção para o fato, que por definição é real, e desejo de expor outras realidades a todos.
Poucos, entretanto, sabem que a Febre surgiu ainda nos tempos célticos. Época que momentos depois o cristianismo de pronto tratou de extirpar qualquer noção de sua existência; e, com certa razão essa ação foi até admissível muito por causa dos excessos de devaneios e fugas da realidade que afligiam aqueles povos nos momentos infelizes doença. Pois, nessa época existia um reino típico de verões vindouros quando, quem sabe por até motivos sheiksperianos, dois jovens da mesma família real trataram de se enamorar e se enaltecerem por uma união impossível ao contraírem a dita virose, então desconhecida por todos. Foi um acontecimento totalmente inconcebível mesmo para esses povos antigos que detinham certas liberdades entre si e, que nesse caso, a coisa passara dos limites e, lógico, ninguém queria que a notícia se espalhasse pelo reino, rumores que só iriam denegrir família. Surgiu daí a necessidade de afastar dos outros os dois enfermos muito para coibir práticas indesejáveis entre os demais.
Mas, o que poucos perceberam é que a Febre trazia momentos de lucidez, de possibilidade de liberdade que aflorava no enfermo um espírito de aventura. Mesmo naquela época, as amarras da sociedade impediam o sujeito de arriscar-se por outros mundos, de sentir novas sensações e ousar lembrar-se de antigos sonhos de explorar terras desconhecidas. A realidade trazia o medo de se aventurar para além dos portões dos castelos – ela mostrava só uma floresta densa, escura e intransponível. A realidade deixava cativa nas pessoas aquilo que a Entidade buscava libertar. No entanto, a Febre influenciava por pouco tempo o enfermo e sua intenção ficava limitada, pois a consciência é maior e mais presente na vida de qualquer um. Assim, as pessoas ao notarem a presença da Febre, do seu efeito indesejável e, ao afastar a pessoa dos outros, silenciava assim a sua presença e, consequentemente, não teve jeito mesmo: a Febre foi relegada a possíveis espasmos decorrentes de um simples resfriado que pode tomar o enfermo de possíveis devaneios causados pelo excessivo aumento da temperatura corporal.
Enfim, o que se percebeu conscientemente, e à medida que a Febre perdia seus efeitos, é que os pequenos chiliques eram passageiros, de pouca importância, e dentro de dois ou três dias tudo desaparecia e o calor do sol retornava para alegrar a todos.